Harbin

Ao passar a porta do aeroporto sou recebido por um frio penetrante, que gela os pulmões e faz tossir involuntariamente. O segundo sinal de que estou na cidade certa está na primeira rotunda, decorada com uma réplica à escala real, da Muralha da China, em gelo. O terceiro, logo de seguida, é uma segunda rotunda que abriga elefantes e palmeiras também de gelo, numa demonstração algo bizarra. Estou em Harbin. Visitar o famoso festival de gelo aguardava na lista e ao terceiro ano foi de vez.

Durante o rigoroso período de Inverno, centenas de esculturas construídas exclusivamente com blocos retirados do gelado rio Songhua espalham-se um pouco por toda a cidade, em rotundas, ruas ou pequenos parques. Algumas translúcidas, outras mais opacas, umas cristalinas, outras de neve condensada, todas desfilam imóveis, em todos os tamanhos e formas, imitando pálidas figuras ou recriando complexas estruturas arquitectónicas. Outras tantas ganham vida, adornadas com LEDs de todas as cores e que parecem aquecer um pouco o ar. Claro que o grande espectáculo está guardado para o recinto do festival, onde mais blocos gigantes gelados e transparentes, moldados e esculpidos nas mais variadas estruturas, recriam castelos, torres, casas e pontes.

No entanto, Harbin é como uma matriosca e tem um traço distintivo que a espaços nos faz esquecer que continuamos na China. A cidade não se esgota no festival que faz jus ao nome e tem mais do que uma primeira vista deixa antever. Semelhante a outras localidades do norte da China, as influências soviéticas fazem-se sentir um pouco por todo o lado, seja nos edifícios, nos rostos ou mesmo na quantidade de reclamos em cirílico. Um expoente desta influência é a catedral de Santa Sofia, uma igreja ortodoxa que se destaca pelas suas cores e formas arredondadas, contrastantes com os grandes rectângulos monocromáticos típicos das grandes cidades chinesas. Claro que depois há o frio. O interminável, intenso, lancinante frio. Quando a temperatura média ronda os -25ºc, andar na rua não é uma tarefa que se encare de ânimo leve. Após cumprir o ritual de vestir todas as protecções possíveis, enfrento o exterior agreste e durante os primeiros minutos acabo a pensar o mesmo: “não está assim tanto frio”. Está. Só preciso de mais uns minutos para que o meu corpo o perceba. E há uma certa magia no silêncio provocado pelo gelo. O isolamento que as camadas de roupa proporcionam, aliado ao som abafado das pisadas na neve, permite-me apreciar em silêncio, numa espécie de reclusão forçada. No meio deste espectáculo é também assim que se distinguem os turistas: são sempre fáceis de identificar pelas inúmeras camadas de roupa ou equipamento de neve desnecessariamente vistoso. Os locais não parecem seguir as mesmas regras, seja no frio, seja no trânsito. Talvez todos estejam com pressa de chegar a casa mas nunca foi tão perigoso atravessar uma estrada como aqui!